Workaholic ou worklover?

Profissionais que trabalham demais por que gostam do que fazem podem se tornar reféns da própria carreira

Para muitos profissionais, jornadas de trabalho longas são associadas ao prazer pelo que se faz. Alguns chegam empolgados para desempenhar seu trabalho na segunda-feira, extrapolam o expediente, mas conseguem manter o entusiasmo até a sexta. Outros ultrapassam a carga horária mínima por carregar consigo a obsessão pela produtividade. Uma linha tênue divide os profissionais extremamente envolvidos em suas funções, e esse limite diferencia o prazer da compulsão.

Uma pesquisa realizada no Laboratório de Psicologia do Trabalho da Universidade de Brasília (UnB) desmistificou a ideia de que todos os que trabalham excessivamente se encaixam na definição de workholics. A tese apresentou ao mundo o worklover, um apaixonado pelo seu ofício.

Para Silvia Osso, psicóloga que ministrou palestra sobre o assunto no 10° Congresso de Stress da International Stress Management Association (Isma-BR), realizado na semana passada na Capital, as empresas sempre buscam pessoas que vistam a sua camiseta e, por isso, os workholics ainda são priorizados nas contratações. Porém, depois de admitido, esse profissional se sobrecarrega e assume tarefas que nem sempre consegue cumprir.

– De repente, ele começa a adquirir uma série de problemas de saúde: gastrite, dor de cabeça, insônia. E passa a somar despesas à organização. As corporações cada vez mais buscam o worklover, pois ele jamais deixa de priorizar o seu bem-estar – diz Silvia.

Além disso, explica Simoni Missel, psicóloga e sócia-diretora da Missel Capacitação Empresarial, as pessoas obsessivas pelo trabalho exigem tanto de si mesmas quanto das pessoas com quem trabalham e muitas vezes passam essa insegurança a sua equipe. Por isso, as empresas hoje estão dando mais valor às pessoas com características de worklovers.

– Normalmente, os apaixonados pelo que fazem conseguem transmitir isso, eles multiplicam essa valorização pelo que fazem, empolgam a equipe e produzem mais – analisa Simoni.

Diferentemente do indivíduo que enxerga a carreira como a única razão de viver, o amante do trabalho consegue separar a vida profissional da social e familiar. De acordo com Lígia Silveira, vice-presidente de eventos científicos da Associação Brasileira de Recursos Humanos no Estado (ABRH/RS), este vai chegar em casa comemorando, compartilhando as suas realizações com o cônjuge e os filhos. O viciado em trabalho vai chegar do trabalho com o físico mais prejudicado e não terá muita energia para interagir com o núcleo familiar.

– O workholic é refém da vida profissional, por isso, não consegue se desligar nunca da empresa. Sente-se culpado quando está de folga, e os momentos de descanso não lhe trazem prazer – salienta Lígia.

Worklover declarado, o empresário César Augusto Corrêa da Silva, 37 anos, assumiu a direção do restaurante da família em Novo Hamburgo e a presidência do Sindicato de Hotéis, bares, Restaurantes e Similares. Mesmo assim, o administrador de empresas não abre mão de acordar às 5h30min da manhã para estudar e se exercitar antes do trabalho. E ainda consegue tempo para participar das atividades escolares do filho de oito anos.

– Sou casado há 13 anos, e a minha família tem tanta importância para mim quanto o meu trabalho. Amo o que eu faço, mas busco sempre qualidade de vida. Acho importante manter as minhas relações sociais e não abro mão das horas de lazer – afirma.

MARIA AMÉLIA VARGAS